Turma, esse anúncio me chamou a atenção porque ele vende um produto ordinário, no sentido de que todo mundo tem um mouse. E aí fica a pergunta: como você vende uma coisa que todo mundo já tem e já usa?
É um Reel da SteelSeries no Instagram, publicado em 29/09/2026 para a pré-venda de dois mouses novos, o Sensei Pro e o Rival Pro. Passou de 2,5 milhões de curtidas e 20 mil comentários.
Ele mostra muito bem por que a pesquisa de público importa (recomendo esta aula sobre o assunto). Para uma pessoa comum, os atributos de um mouse não fazem diferença nenhuma: é tudo a mesma coisa. Mas, para um gamer, a qualidade do mouse define o desempenho dele no jogo. O anúncio explora isso de um jeito bem inteligente e com uma pitada de humor: logo de cara, sugere que quem se acha ruim nos jogos talvez mereça uma segunda chance, porque o tiro que você errou pode ter sido culpa do mouse.
Ou seja, o produto não é só um mouse melhor. É a chave para você conseguir o seu objetivo, que é ganhar das crianças que jogam melhor que você.
Isso me lembra o copy clássico do David Ogilvy para o Rolls-Royce. Em nenhum momento ele diz que o carro é melhor, que é o melhor carro do mundo, nada do tipo. Ele fala dos atributos e deixa a pessoa chegar sozinha à conclusão de que, graças a eles, está diante da melhor compra possível. A SteelSeries faz a mesma coisa: nunca diz “somos o melhor mouse”, só mostra a banda ultralarga, os 20 vezes mais largura de banda e a bateria que não acaba, e deixa o jogador concluir.
As pessoas também perguntam
O público já tem mouse e, em boa parte, já sabe que existem mouses gamer. Na escala do Eugene Schwartz, ele estaria no “Nível 4 – Consciente do Produto”: conhece a categoria e a marca, só não tem motivo para trocar o que já usa.
Por isso o anúncio não começa pelo produto. Ele começa criando um problema que o jogador não sabia que tinha (o rastreamento que falha por interferência de aparelhos sem fio por perto) e traz o público de volta ao “Nível 2 – Consciente do Problema”. Só depois apresenta o Sensei Pro e o Rival Pro como a solução.
Para quem vende um produto que todo mundo já tem, essa é a saída: em vez de competir no “o meu é melhor”, revelar um defeito invisível naquilo que a pessoa já usa.
A emoção dominante é o orgulho, o ego competitivo do jogador, temperado com humor.
O anúncio cutuca uma ferida que todo gamer conhece: perder para um moleque que vai se achar melhor que você. Ao mesmo tempo, oferece alívio (talvez a culpa tenha sido do mouse) e termina apelando para a vontade de glória, que é a assinatura da marca (“For Glory”).
O humor (o personagem pixelado, a paródia do Homem-Aranha, os “esquisitões da pegada em garra”) deixa a provocação leve e faz o anúncio parecer conteúdo, não propaganda.
O mecanismo único é a banda ultralarga (Ultra Wideband), a tecnologia de conexão sem fio dos dois mouses. Segundo o anúncio, um mouse comum falha por causa da interferência de outros aparelhos sem fio por perto, e a banda ultralarga é praticamente imune a isso, com 20 vezes mais largura de banda.
O segundo mecanismo é o sistema de bateria infinita, que resolve a objeção natural de quem ouve falar em desempenho sem fio: “e a bateria?”.
Repare que os dois aparecem como atributos, nunca como superlativos. Quem conclui que é o melhor mouse é o próprio jogador.
Jogadores de PC, principalmente de jogos de tiro competitivos (FPS), que já levam o equipamento a sério. O vocabulário funciona como filtro: “headshot”, “whiff” (errar o tiro feio), “claw grip” (pegada em garra). Quem não joga não entende metade das piadas, e é de propósito.
A persona é um homem de 18 a 35 anos que joga partidas ranqueadas, se considera bom, mas vive perdendo para adolescentes no online. Já tem um mouse gamer, acompanha lançamentos e topa pagar mais caro por qualquer vantagem na mira. O que ele quer não é um mouse novo: é parar de perder e ter a sua glória.
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